A carta era de despedida.

Numa noite tristonha, dessas de domingo, quando já era quase segunda, vinte e três horas e sete minutos, pra ser mais estranho, Jeremias desligou as luzes, acendeu duas velas e antes disso tudo, pegou sua gaita, pobre abandonada já fazia pelo menos cinco anos, e entre vai-vens de um ar cansado, tocou qualquer coisa até tocar alguma coisa que fizesse um sentido bom.
Respirar com a harmônica é sentir que a vida não se foi sem par, não está parada, por fim.
Jeremias pensava isso quando fez uma música pequena na gaita. Gravou com um gravador a fitas. Ouviu, pensou que Dolores poderia gostar da melodia, imaginou uma calmaria pro coração dela ao ouvir a peça minúscula. Colocou a fita em um envelope azul celeste, escreveu no verso: "toco o seu coração e te abraço daqui." e enviou para Dolores. Aí chorou. As lágrimas caíram nos orifícios do instrumento e mudou o som, ele não parava, porque aquele era o som dos seus olhos, era o som do seu coração. E só ele mesmo podia ouvir, distante.
A noite passou e, ao acordar, era manhã de segunda. E a gente sabe o quanto uma manhã de segunda pode ser dolorida. A gaita estava no chão.
Dolores respondeu "bonito" à carta musical de Jeremias. Ele sorriu. Saiu pro dia, mas não voltou pra noite. A carta era de despedida. Dolores chorou.
Silêncio.

Teddy Falcão

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Instagram